…de quando em quando olhava para trás na perspectiva de guardar na retina os prédios que ficavam pequeninos quanto mais a velocidade avançava… como que em sonho a verticalidade desaparecia na névoa típica da metrópole… quase chovia, quase fazia sol… “quase” era o que pulsava na sua circulação de iniciante… debutara em algo que lhe fôra dado como um presente embrulhado em caixa vermelha com fita branca decorada com pequenas bolas pretas… era detalhista com as formas e as composições, talvez por isso tenha ido parar nesse novo universo de cores, harmonias e olhares… a quem se olha revela-se o ‘eu’… parte de uma fina membrana que separa as peles alheias… como um certo magnetismo preemente de borboleta em busca de flor… borboleta porque não mais era casulo ou lagarta… porque agora voara… voara em altitudes de alvorada, em esperanças acesas como lâmpadas ofuscadas pelo orvalho de noite de primavera… porque haveria de temer essas novas manhãs e esse renascer diário de mariposa? porque haveria de negar as então pequenas futilidades? Sua visão no salão era de perfeitas flores brancas – recém nascidas ou paridas num mundo sem mãe, invólucro de aparências cristalinas, porque assim eram essas horas… o que há ainda para ser visto e descoberto? seguido ou vivido? o amor e as verdades ditas aguçavam seu olhar para o destino, uma escada de fogo rumo ao branco neve do seu futuro… ela pensou no silêncio absurdo do seu olhar: ‘je suis’…
29, 2007